Lá vamos nós observar o cotidiano. Na lanchonete, com o olhar perdido, vendo, mas não enxergando nada. Minha atenção é despertada pela pessoa a minha frente, com sua xícara de café.
Não olho a pessoa, observo os gestos.
Se meu olhar está perdido em dimensões estranhas, o dele deve estar em uma dimensão divertida, pois ele sorri. Os olhos estão fixos na xícara, mas tenho certeza que ele não a vê. Ele mergulhou no líquido marrom e apareceu em outra dimensão. Talvez esteja revisitando uma tarde antiga, talvez remontando o futuro. Quem sabe?
Qual o problema? Nenhum. Todos nós fazemos isso. O que? Com uma xícara de café na mão, se desligar do mundo. Ir para algum lugar que ninguém nunca foi, mas você já esteve lá. É um pacto silencioso entre os distraídos de plantão: fingimos que tomamos café, mas, na verdade, estamos boiando entre um gole e outro.
Um refúgio só nosso. Segundos de uma parada que valem por horas. Alívio para a alma, alívio para os nervos. E o melhor: ninguém precisa saber.

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